Luthier

Durante toda minha vida estive ligado diretamente à música. Antes de completar 10 anos, conheci o banjo e o violão. Mais tarde, com 11 anos, descobri um grupo de músicos que tocavam chorinho.

Zé Maria no violão dinâmico, Magalhães no cavaquinho, Orlando no violão de sete cordas e Manuel “Lambe Lasca” no pandeiro. Quando o Zé Maria e sua turma tocavam “Pedacinhos do Céu”, do Waldir Azevedo, eu morria e renascia por dentro, maravilhado com os timbres daqueles instrumentos.

Aos 16 anos, influenciado pelos Beatles, comecei a tocar violão e logo que aprendi alguns acordes mandei fazer um violão especial com o luthier Rochinha, de Manaus. Caí na besteira de emprestá-lo para um amigo de infância que o espatifou na cabeça de um desafeto. Em 1967, Zé Maria me convidou para integrar a banda, desde que eu conseguisse um baixo-elétrico. Com a ajuda do meu patrão na época, comprei um baixo Phelpa, uma imitação brasileira do Jazz Bass da Fender. Foi a glória. Eu tinha um baixo elétrico mas….não tinha amplificador. O Zé Maria fizera um curso de eletrônica por correspondência e resolveu o problema: montou um “ampli” a partir de um rádio velho. Foi com esse “ampli” que o “The Rights” tocou e ganhou dinheiro para comprar depois um aparelho de verdade.

Um ano depois, 1968, deixei a turma do “The Rights” e parti para montar “Os Embaixadores”, junto com meu amigo e parceiro musical José Dibo. Fiquei dois anos nessa banda fazendo guitarra-solo e no vocal solo. Em 1969, passei para guitarra-base no “The Blue Birds”, onde fiquei apenas seis meses. Detalhe: Estas duas bandas ainda estão em atividade em Manaus. Nesse meio tempo, comecei a compor e participei de vários festivais de música. Num deles, em 1969, apresentei minha composição “Jogo de Calçada”, (com letra de Ilton Oliveira) à banda paulista “Os Mutantes”( da Rita Lee) que fizera o show de encerramento do festival. Meses depois “Jogo de Calçada” estava gravada e eternizada pela então melhor banda de rock brasileira.

Em 1970, a saudade apertou e voltei para os “Embaixadores” onde toquei mais dois anos. Depois, eu e José Dibo formamos outras bandas de baile, sempre privilegiando os vocais. Em 1977, já cursando Comunicação Social na Universidade Federal do Amazonas, fiz vários shows no Teatro Amazonas junto com os parceiros Torrinho, Aldísio Filgueiras, Flávio Cohen, Bernardo Lameiras, o baterista Almir e o baixista Adriano Giffoni. Em 1981, me formei em Jornalismo mas continuei fazendo “bicos musicais”. Em 1988, convoquei antigos parceiros e formamos o “Clube da Beatlemania”, uma banda cover dos Beatles, com Paulinho na guitarra-base, José Dibo no baixo-elétrico (depois Bernardo Lameiras) Carlinhos Teixeira na bateria e eu na guitarra-solo. A banda fez sucesso imediato mas teve vida curta. Por motivos profissionais e para a felicidade da minha mulher Lêda, me transferi para Brasília em agosto de 1988. Uma vez instalado na capital federal, fiquei incentivando os amigos de Manaus a continuarem com a banda. Meses depois, surgia a “Máquina do Tempo”, interpretando Beatles e outros hits sessentões. O sucesso foi inevitável.

No início dos anos 90 conheci novos parceiros de música em Brasília e acabei formando uma banda de baile. Hoje, toco de vez em quando com um grupo de amigos interpretando aquelas canções que embalaram as gerações dos anos 60 e 70. Para minha alegria, tenho um filho músico, Marcelo Duarte, 30 anos, exímio baixista, arranjador e professor de música formado no Centro Profissionalizante da EMB -Escola de Música de Brasília e graduado em Licenciatura em Educação Artística pela Universidade de Brasília (UnB). Yana Morena, minha filha de 21 anos, também tem veia musical, mas prefere  Design Gráfico.

Em 2002 fiz um curso de luteria com o luthier Eduardo Brito, de Brasília, e construí meu primeiro violão. Hoje, com 69 anos, além da minha família, a minha grande paixão são os formões e outras ferramentas de corte que dão os contornos aos violões, guitarras e contra-baixos na minha  luthieria. Além de construir, também  conserto, restauro e regulo instrumentos, além  de ensinar a arte da luteria. Minha ambição? Quero aperfeiçoar meu trabalho, para um dia me tornar um luthier master. Nem que isso demore mais 69 anos.

Por que me tornei luthier

Em 1963, então com 15 anos, fui passar férias em Fortaleza(CE), na casa de uma tia, no bairro de Mondumbim. Em meio ao bucolismo do local, o marasmo só era quebrado pelo som que vinha de um rádio que minha tia ligava de vez em quando. Certo dia, ouvi uma música diferente daqueles boleros e sambas canções que eu estava acostumado a curtir. O som dos instrumentos era diferente, agressivo, a bateria marcante e o ritmo frenético, mais pesado do que aquilo que eu já tinha visto o Elvis Presley fazer nos filmes que eu assistia no cine Guarany, em Manaus. No final da música, ouvi o locutor informar: “este foi o som dos BITÔS, com AIUANTIUROUDIORANDI. Fiquei curioso. Queria saber que conjunto era aquele:BITÔS?… seria um grupo brasileiro? Estrangeiro? Grego? Troiano? O que seria afinal?. Nos dias seguintes fiquei ligado na mesma emissora e quando chegava a tarde, lá vinha de novo locutor anunciar com forte sotaque nordestino mais um “roquenrou”. Dizia ele: “E agora o novo sucesso da banda inglesa DÊ BITÔS, AIUANTIUROUDIORANDI “ e começava a música. Puxa, eu já tinha vibrado com alguns rocks do Elvis, do Sérgio Murilo, Renato e Seus Blue Caps, mas aquele som era demais. Fiquei vidrado. Eu precisava saber mais sobre aquele conjunto. Uma banda inglesa! Quem seriam eles?

Fim de férias, de volta à minha pacata Manaus, procurei logo meus amigos para trocar informações e saber quem eram aqueles caras. Procurei nas discotecas e nada. Meses depois é que fui ouvir nas rádios de Manaus novamente o som dos BITÔS. Numa festinha na casa de uns primos ouvi a mesma música vinda da vitrola: oh yeah, I’ll tell you something…, procurei a capa do disco compacto e lá estavam eles: THE BEATLES, com a música I WANT TO HOLD YOUR HAND, editado no Brasil pela gravadora Odeon. No lado A, I WANT TO HOLD YOUR HAND; no lado B, SHE LOVES YOU. Muito prazer. Eu acabara de conhecer os quatro rapazes de Liverpool, que dali por diante seriam meus amigos musicais inseparáveis. A partir desse dia, procurei estudar violão, pois eu queria tocar as músicas da dupla Lennon e McCartney.

Arranjei logo um emprego numa fábrica de tijolos e ao receber meu primeiro pagamento fui correndo contratar um professor de violão. Sofri para aprender os primeiros acordes. O violão Giannini com cordas de aço do professor Carlinhos era duro de matar, mesmo depois de um mês de aula, eu não conseguia fazer um acorde de Fá Maior com pestana. Que dureza. Dois meses depois eu mal conseguia dedilhar uma valsinha. E meu salário era pequeno e não dava pra comprar nem um violão de brinquedo. Meio desolado, um dia encontrei na rua meu amigo George Jucá e contei meu drama. Aí ele falou: “vamos lá em casa, eu tenho dois DiGiorgio, com cordas de nylon”. Ah, que alívio. Os violões do Jucá eram mais regulados com as cordas mais flexíveis e eu consegui enfim fazer um acorde de Fá Maior sem dor nos dedos. Daí pra frente foi fácil aprender as músicas dos Beatles. Logo depois conheci o José Dibo, meu grande irmão e parceiro musical e aí começamos a aprender várias músicas dos Beatles, Renato e Seus Blue Caps e Os Incríveis, nossos conjuntos preferidos.

Com o correr do tempo, vendo revistas de músicas e fotografias dos Beatles, fui conhecendo melhor o equipamento daquela maravilhosa banda inglesa: Os amplificadores Vox, a bateria Ludwig, as guitarras Rickenbacker Capri do John Lennon e a 360/12 C63 do George Harrisson. Ah, a Rickenbacker do George Harrisson, que som maravilhoso. Foi paixão à primeira vista. Movido por essa paixão, mandei fazer logo o meu primeiro violão. Mas eu queria uma guitarra. Mas naquela época para eu conseguir uma Rickenbacker de 12 cordas, era como um esquimó querer comprar uma Ferrari morando no Pólo Norte. Com a criação da Zona Franca em Manaus, as lojas locais importavam todo tipo de guitarra, menos Rickenbacker. Depois de formar meu primeiro conjunto comecei a ter acesso às guitarras Fender Stratocaster, às japonesas Teísco e Nivico, às alemães Hofner semi-acústicas. Mas as lojas de Manaus nunca importavam Rickenbacker. Durante anos fiquei à espreita nas lojas mas nenhum sinal. O tempo passou.

Me formei em Jornalismo, casei, mudei de cidade (me transferi para Brasília em 1988) e em 2002 consegui fazer uma pequena poupança e decidi então comprar uma guitarra Rickenbacker de 12 cordas. Pesquisei na internet e não encontrei nenhuma Rickenbacker no Brasil. A mais próxima estava em Buenos Aires, na Argentina. Liguei para a loja e me deram o preço dela: US$ 3.900, quase R$ 12 mil na época. E eu só tinha R$ 3 mil na poupança. Foi então que me veio a ideia de mandar fazer uma réplica da guitarra igual a que o George Harrisson usara. Consultei vários luthiers no Rio, em São Paulo, em Minas Gerais.. Todos poderiam fazer, desde que eu pagasse uma média de US$ 3.700 e entrasse numa fila de espera, que poderia demorar até um ano.

Foi então que a luz acendeu na minha cabeça: vou fazer um curso de lutheria -sonho que eu acalentava desde que eu conheci o luthier Rochinha, em Manaus – para construir minha própria Rickenbacker. Em outra pesquisa na Internet encontrei o luthier Eduardo Brito, músico e professor de luteria em Brasília, que me aconselhou a aprender primeiro a fazer um violão, para depois construir uma guitarra do tipo Rickenbacker. Dito e feito. De 2002 a 2003 construí meu primeiro violão e aprendi também a restaurar instrumentos. Em 2004, comprei uma sala no bairro do Sudoeste com ajuda da minha mulher e instalei minha pequena oficina de luthieria. Em 2013, depois de importar os principais componentes, finalmente construí uma réplica da Rickenbacker 360/12 C63, igual a que o George Harrisson usou nos Beatles de 1963 a 1965. Segundo informa a Wikipédia, apenas 25 exemplares desse modelo foram fabricados em 1963. A do George Harrisson era a número 2. Depois disso, a fabricação desse modelo foi descontinuada. Logo depois a Rickenbacker lançou o modelo 370/12, com as bordas abauladas mas sem a beleza e a mística do modelo C63. Hoje, vários luthiers nos Estados Unidos fazem a Réplica da Rickenbacker 360/12 C63 com muita fidelidade e até bem mais acabadas que a original. Mas a original, do George Harrisson, essa, é inigualável. É igual à minha: única.